“Os sentimentos contraditórios coexistem.
Não se anulam, obrigatoriamente. Pois é. Somos seres tão complexos, que, dentro de nós, somos capazes de ter muita raiva e ao mesmo tempo também amar demasiadamente a mesma pessoa.

Contradição? Sim, somos cheias dela.
Ouso dizer que, por mais um pouco, são elas que nos constituem. Rir e chorar. Tristezas que convivem com alegrias. Mágoas e perdão.

Sim, eu sei, talvez fosse mais fácil, mais simples, se a gente pudesse pegar tudo e decompor em caixinhas etiquetados, planilhas detalhadas, análises desenhadas. Mas, nesse universo dos afetos humanos, tudo se passa de um jeito bem diferente.

Alguns de nós passam a vida tentando – forçosamente – fazer tudo caber: em uma única história, em uma boa explicação, na análise correta ou em uma lista razoável de justificativas. Outros de nós, parecem quase dominar a arte de portar em si infinitas dobras.

Esse último caso, por sinal, bem mais raro.
O fato é que a gente parece querer tender para a homogeneidade. Quando, nós, em nosso próprio ser, estamos bem longe dela.
Em um conflito, por exemplo, pode ser que os dois estejam certos. Estejam também errados. E que ambos tenham suas razões.
Sabe como é? Complexo.

A saída talvez seja mudar o foco, a perspectiva e só parar de querer encontrar – racionalmente – a última palavra pra tudo: em especial para os nossos sentimentos. Nossas existências são muito grandiosas, cheias de pequenas e diversas facetas, todas elas profundas e verdadeiras. Somos opostos em nós mesmos, o tempo todo. E isso não é necessariamente ruim.

Ser verdadeira consigo mesma e com suas próprias contradições pode demandar coragem. A ousadia de não ter explicações, nem saber o porquê. Enfrentar o que não tem resposta. A bravura de sustentar, em aberto, uma questão. Afinal, pode caber tantos saberes em um « não sei ».”

✍🏾 Ana Carolina Barros Silva
Coordenadora-geral
Psicanalista do corpo clínico da Casa de Marias