No mês de março, concluí um curso em “Psicologia e Relações Raciais” pelo Instituto AMMA Psiquê e Negritude e o tema do meu grupo de Reflexão Crítica foi “Perspectivas da Sexualidade em Corpos Negros”, cuja orientação foi dada pela querida Profª. Drª. Clélia Prestes. Compartilho então, neste precioso espaço desta Casa, que é minha, que é nossa, uma vinheta da minha contribuição para este trabalho final, após esse potente percurso de muito aprendizado e troca!  

 

“O tema ‘afetividade/sexualidade’ me é muito precioso por diversos motivos. Ao longo de minha trajetória profissional, como psicóloga, atuante no Sistema Único de Saúde, trabalhei em um serviço de referência com pessoas vivendo com hiv/aids e, dentro desse serviço, tive muitas oportunidades de compor projetos com equipes engajadas em ofertar o melhor cuidado e a melhor assistência a essas pessoas. E foi nesse lugar que meu interesse por esse campo se aflorou, principalmente no que diz respeito ao direito a ter uma vida sexual segura, livre e prazerosa, quando se é alguém que vive com uma doença sexualmente transmissível que, socialmente, lhe dá um lugar dentro das dinâmicas relacionais de afeto, como se ter o diagnóstico soropositivo para hiv, por exemplo, anulasse a chance de uma pessoa ser amada, ser escolhida, ser desejada por outra pessoa soronegativa para esse mesmo diagnóstico. Meu questionamento e, posso dizer, incômodo naquela época (e ainda hoje) era de pensar no campo do direito: Que direito uma pessoa perde de não performar em plenitude sua vida sexual/afetiva por ter um diagnóstico soropositivo para uma ist? Por que seu valor tende a diminuir, no campo relacional, por ela ter uma enfermidade? Quem limita esse horizonte?

E essas mesmas questões, em cruzamento com outros marcadores, são as que me trouxeram para esse grupo. Qual direito ao afeto, ao sexo livre e prazeroso é garantido aos corpos negros? Nós temos esses direitos? Ou eles continuam sendo histórica e socialmente negados?

Além dessas questões, outras me atravessam, por ser uma mulher cisgênera, preta, periférica, lésbica, gorda. A minha experiência afetiva e sexual carrega os reflexos desses grupos os quais pertenço. Vivo em uma sociedade onde corpos como o meu não encontram terra fértil para plantar, semear e colher afeto. Sou cercada de pessoas que, invariavelmente, olham para mim e identificam os limites de até onde eu deveria me permitir chegar no campo afetivo/sexual (quiçá, os demais). Vivo em uma sociedade onde é impossível a corpos pretos alguma imunidade às práticas racistas direcionadas cotidianamente a esses corpos, sejam elas escancaradas, sejam elas sutis. Esse reconhecimento não é uma análise inundada de autocomiseração. Esse reconhecimento é um instinto de autopreservação e foi necessário para construir meu autoamor, porque sem ele, provavelmente, eu não estaria aqui, cheia de potência de vida e de trabalho, compondo esse grupo, dividindo essa reflexão.

Aí fora há um projeto em curso que direciona a corpos como o meu, a corpos como os dos meus irmãos e irmãs uma alta dose de letalidade, uma alta carga de adoecimento psíquico, de achincalhamento moral, de anulação emocional, de silenciamento e aniquilamento existencial, entre outras coisas vis. Estar aqui viva, escrevendo essas linhas, contrariando as estatísticas é uma das provas de que o amor entre pessoas pretas cura e faz viver. Foi o amor de pessoas pretas, o amor da minha família, de amigues, colegues e parceires de militância que me trouxe até aqui. Foi o amor, em forma de aquilombamento, a terra fértil que encontrei para cultivar a semente do meu autoamor. Ela brotou, cresceu, floresceu. Praticar o amor entre nós é nosso direito, mas também dever. Direcionar aos nossos corpos afeto potente e curador é uma das mais combativas formas de existir e resistir. Não dá para esperar isso deles. Isso tem que ser feito, sobretudo, por nós e para nós, até porque, conforme nos ensina nossa aguerrida mestra Conceição Evaristo: ‘se eles combinaram de nos matar, nós combinamos de não morrer.’! Precisamos exercer nosso direito ao amor, porque assim, também exerceremos nosso direito de viver e de nos libertar, ainda que subjetivamente, do sistema que quer, tão somente, nos aprisionar e nos matar!”

 

✍🏾. #AsMariasDaCasa
Contribuição de Daniela Cardoso
Psicóloga do corpo clínico da Casa de Maria